domingo, 9 de novembro de 2014

DESDE O DIA 26 DE OUTUBRO, OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO PROPAGAM QUASE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO, QUE A AUSTERIDADE FISCAL E MONETÁRIA É A ÚNICA VIA PARA O BRASIL...


FCO.LAMBERTO FONTES
Trabalha em JORNALISMO INTERATIVO
 em ARAXÁ / MG.
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postado em: 06/11/2014
Economia

Manifesto dos economistas
pelo desenvolvimento e
pela inclusão social

Manifesto dos Economistas

A campanha eleitoral robusteceu a democracia brasileira através do debate franco sobre os rumos da Nação. Dois projetos disputaram o segundo turno da eleição presidencial. Venceu a proposta que uniu partidos e movimentos sociais favoráveis ao desenvolvimento econômico com redistribuição de renda e inclusão social. A maioria da população brasileira rejeitou o retrocesso às políticas que afetam negativamente a vida dos trabalhadores e seus direitos sociais.

É de se esperar que o pluralismo de opiniões fortaleça nossa democracia depois da pugna eleitoral. Desde 26 de outubro, contudo, a difusão de ideias deu a impressão de que existe um pensamento único no diagnóstico e nas propostas para os graves problemas da sociedade e da economia brasileira. Sem o contraponto propiciado pela campanha e pelo horário eleitoral gratuito, os meios de comunicação propagaram quase exclusivamente a opinião que a austeridade fiscal e monetária é a única via para resolver nossos problemas.

Isto vai na contramão da opinião de economistas de diferentes matizes no Brasil, mas reverbera o jogral dos porta-vozes do mercado financeiro. Estes defendem solucionar a desaceleração com a “credibilidade” da adesão do governo à austeridade fiscal e monetária, exigindo juros mais altos e maior destinação de impostos para o pagamento da dívida pública, ao invés de devolvê-los na forma de transferências sociais, serviços e investimentos públicos.

Subscrevemos que este tipo de austeridade é inócuo para retomar o crescimento e para combater a inflação em uma economia que sofre a ameaça de recessão prolongada e não a expectativa de sobreaquecimento. O reforço da austeridade fiscal e monetária deprimiria o consumo das famílias e os investimentos privados, levando a um círculo vicioso de desaceleração ou mesmo queda na arrecadação tributária, menor crescimento econômico e maior  carga da dívida pública líquida na renda nacional.

Entendemos que é fundamental preservar a estabilidade da moeda. Também somos favoráveis à máxima eficiência e ao mínimo desperdício no trato de recursos tributários: este tipo de austeridade, sim, denota espírito público e será sempre desejável. Rejeitamos, porém, o discurso dos porta-vozes do mercado financeiro que chama de “inflacionário” o gasto social e o investimento público em qualquer fase do ciclo econômico.

Tampouco compreendemos o argumento que associa a inflação ao gasto público representado por desonerações que reduzem custos tributários e subsídios creditícios que reduzem custos financeiros. A inflação, aliás, manteve-se dentro da meta no governo Dilma Rousseff a despeito de notáveis choques de custos como a correção cambial, o encarecimento da energia elétrica e a inflação de commodities no mercado internacional.

A austeridade agravou a recessão, o desemprego, a desigualdade e o problema fiscal nos países desenvolvidos mesmo tendo sido acompanhada por juros reais baixíssimos e desvalorização cambial. No Brasil, a apreciação cambial estimulada por juros reais altos aumenta o risco de recessão, ao acentuar a avalanche de importações que contribui para nosso baixo crescimento.

É essencial manter taxas de juros reais em níveis baixos e anunciar publicamente um regime fiscal comprometido com a retomada do crescimento, adiando iniciativas contracionistas, se necessárias, para quando a economia voltar a crescer. A atual proporção da dívida pública líquida na renda nacional não é preocupante em qualquer comparação internacional.

O que nos preocupa é a possibilidade de recessão e a carência de bens públicos e infraestrutura social reclamada pela população brasileira. Atendê-la não é apenas um compromisso político em nome da inclusão social, é também uma fronteira de desenvolvimento, estímulo ao crescimento da economia e em seguida da própria arrecadação tributária.

Esta opinião divergente expressa por parte importante dos economistas brasileiros não pode ser silenciada pela defesa acrítica da austeridade, como se o mantra que a louva representasse um pensamento único, técnico, neutro e competente. Um dos vocalizadores desse mantra chegou a afirmar que um segundo governo Dilma Rousseff só seria levado a caminhar em direção à austeridade sob pressão substancial do mercado, o que chamou de "pragmatismo sob coação". Esperamos contribuir para que os meios de comunicação não sejam o veículo da campanha pela austeridade sob coação e estejam, ao contrário, abertos para o pluralismo do debate econômico em nossa democracia.

Maria da Conceição Tavares (UFRJ)
Luiz Gonzaga Belluzzo (UNICAMP e FACAMP)  - Ricardo Bielschowsky (UFRJ)
Marcio Pochmann (UNICAMP)  - Pedro Paulo Zahluth Bastos (UNICAMP)
Rosa Maria Marques (PUC-SP)  - Alfredo Saad-Filho (SOAS - Universidade de Londres)
João Sicsú (UFRJ)  - Maria de Lourdes Mollo (UNB)
Antonio Prado (Secretário Adjunto – CEPAL)  - Vanessa Petrelli Corrêa (UFU)
Carlos Pinkusfeld Bastos (UFRJ)  - Alexandre de Freitas Barbosa (USP)
Lena Lavinas (UFRJ)  - Luiz Fernando de Paula (UERJ)
Hildete Pereira Melo (UFF)  - Niemeyer Almeida Filho (UFU)
Frederico Gonzaga Jayme Jr. (UFMG)  - Jorge Mattoso (UNICAMP)
Carlos Frederico Leão Rocha (UFRJ)  - Rubens Sawaya (PUC-SP)
Fernando Mattos (UFF)  - Pedro Rossi (UNICAMP)
Jennifer Hermann (UFRJ)  - André Biancarelli (UNICAMP)
Bruno De Conti (UNICAMP)  - Julia Braga (UFF)
Ricardo Summa (UFRJ)  - Frederico Katz (UFPE)
Cristina Fróes Borja Reis (UFABC)  - Luiz Carlos Delorme Prado (UFRJ)
Fernando Sarti (UNICAMP)  - Ramon Garcia Fernandez (UFABC)
José Porfiro da Silva (UFAC)  - José Eduardo Roselino (UFSCAR)
Eduardo Fagnani (UNICAMP)  - Danilo Araújo Fernandes (UFPA)
Ana Rosa Ribeiro Mendonça (UNICAMP)  - Antonio Prado (Secretário Adjunto – CEPAL)
Gilberto Libanio (UFMG)  - José Rubens Damas Garlipp (UFU)
Angela Ganem (UFRJ)  - Clésio Lourenço Xavier (UFU)
Alcides Goularti Filho (UNESC)  - Ana Paula Sobreira Bezerra (UFPE/CAA)
Cláudia Alessandra Tessari (UNIFESP)  - Luiz Augusto Estrella Faria (UFRGS)
Gustavo Figueiredo Campolina Diniz (UFMG)