sábado, 22 de agosto de 2020

MENSAGEM RECEBIDA HÁ POUCOS MOMENTOS, POR ESTE BLOG, ENVIADA PELO SITE INDEPENDENTE "THE INTERCEPT_BRASIL", COM RELEVANTES DENÚNCIAS SOBRE OS DESMANDOS QUE ACONTECEM EM NOSSO BRASIL...

 

FCO.LAMBERTO FONTES
Trabalha em JORNALISMO INTERATIVO
Mora em ARAXÁ/MG

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22 / 08 / 2020

Sábado, 22 de agosto de 2020


E o delegado

era o cunhado

Ricardo Filippi Pecoraro é irmão de Camila Filippi Pecoraro, casada com Flavio Morgenstern, 

editor do Senso Incomum.

 

O delegado da Polícia Federal que investigou o Sleeping Giants Brasil é cunhado de Flavio Azambuja Martins, mais conhecido pelo pseudônimo Flavio Morgenstern, influenciador bolsonarista em redes sociais e dono de uma página de extrema direita chamada Senso Incomum. Azambuja é crítico feroz do grupo anônimo que atua para retirar anúncios de sites que propagam conteúdo de ódio, fake news e desinformação – caso do próprio Senso Incomum. Azambuja, vale lembrar, foi condenado a indenizar Caetano Veloso em R$ 120 mil por mover uma campanha digital acusando o artista de pedofilia.

Vamos à genealogia: Ricardo Filippi Pecoraro, o delegado, é irmão de Camila Filippi Pecoraro, uma advogada que se casou com Azambuja em 2014 em São Paulo. Tivemos acesso à certidão de casamento que comprova a união. Azambuja, após a assinatura do documento, adotou o sobrenome da mulher – Flavio Azambuja Martins Filippi Pecoraro.

Tivemos acesso também a documentos que atestam o grau de parentesco entre Camila e o policial federal Ricardo Pecoraro, seu irmão e cunhado de Azambuja, o delegado responsável pela insólita investigação que prometia ir arás de sites que publicam fake news mas, na verdade, investigou os denunciantes, como revelamos.

E vejam que curioso: Azambuja escreveu um punhado de artigos poucos dias antes de Pecoraro abrir seu brilhante inquérito. Num deles, o editor esperneou que o grupo "começou no Brasil com difamação – chamando vários sites de 'propagadores de fake news', sem prova alguma". Por mera coincidência (?), uma das justificativas de Pecoraro para investigar o perfil foi, justamente, que o Sleeping Giants estaria fazendo “acusações graves, contudo genéricas, não apontando exatamente quais teriam sido as fake news que os veículos de comunicação que cita teriam cometido”. A argumentação é idêntica, e identicamente mentirosa. As denúncias do grupo são objetivas, como se pode ver aquiaquiaquiaquiaqui e aqui, pra começar.

Um dos textos de Azambuja foi publicado em 20 de maio, uma quarta-feira. Cinco dias depois, na segunda, o cunhado dele abriu inquérito contra o Sleeping Giants Brasil e ordenou “a produção de Informação Policial que indique, conforme seja possível, os dados e endereço do responsável legal pelo perfil Sleeping Giants”. Curiosamente, mais uma vez, o mesmo argumento está no texto do Senso Incomum, onde Azambuja lembrou o seguinte: "a Constituição permite pseudônimos, não anonimato".

O delegado também argumentou que o Sleeping Giants Brasil pode estar cometendo “crimes contra [...] a Liberdade de Imprensa; a Liberdade de Pensamento; à Liberdade de Expressão e a Livre Concorrência dos Meios de Comunicação no Brasil” – nada disso faz sentido. Notem que a preocupação com os prejuízos econômicos que o Sleeping Giants vem causando na extrema direita é patente em vários dos textos de Azambuja sobre o assunto. Como se diz por aí, delegado e cunhado estavam realmente “na mesma página”.

Mas a história não acabou. Além de cunhado do editor bolsonarista, o delegado Pecoraro foi colega de repartição do então escrivão de polícia Eduardo Bolsonaro, mais conhecido como o filho 03 do presidente e chefe do fã-clube brasileiro de Steve Bannon – preso na última quinta-feira por fraude. Em 2013, Eduardo foi transferido para a superintendência da PF em São Paulo, onde Pecoraro trabalhava.

Flavio Azambuja Martins Filippi Pecoraro também é próximo da família Bolsonaro. Ele, a mulher Camila e o 03 Eduardo foram juntos a um protesto pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 2014, em São Paulo.

 Então, por essas coisas da vida, um poeminha:

Pecoraro
Que trabalhava com Eduardo
Que é irmão de Camila
E cunhado de Flávio
Queria quebrar do Sleeping Giants
O seu anonimato.

Se os argumentos psicodélicos usados por Pecoraro para investigar o Sleeping Giants já sugeriam que havia algo errado (é sério, leiam a reportagem e tentem não rir), o elo familiar dele com um provável alvo – e crítico feroz do grupo – faz o mau-cheiro da coisa aumentar exponencialmente. Tentamos contato com Azambuja para entender se ele apenas inspira Ricardo loucamente ou se tem algo a mais nessa história. Se acolheu uma sugestão dele para abrir a investigação, por exemplo, pode ter até cometido crime de prevaricação. Sem respostas.

código de ética da Polícia Federal proíbe "utilizar, para o atendimento de interesses particulares, recursos, serviços ou pessoal disponibilizados pelo Departamento", "influenciar decisões que possam vir a favorecer interesses próprios ou de terceiros" e "utilizar-se de sua função, poder, autoridade ou prerrogativa com finalidade estranha ao interesse público". Há que se observar ainda a Lei de Abuso de Autoridade. Pecoraro, parece evidente, precisa ser investigado. 

Tentamos entrar em contato com o delegado Pecoraro e com a irmã dele, Camila, por telefone. Procuramos Azambuja por seus perfis no Twitter, Facebook e pelo chefe de redação do jornal de Olavo de Carvalho, Paulo Briguet, que nos informou que o colega bolsonarista não iria nos responder – antes de sequer ter ouvido que perguntas faríamos. A redação, aliás, funciona em Londrina, onde moram alvos do inquérito das fake news no Supremo Tribunal Federal, e onde o policial Pecoraro trabalha. 

Também entramos em contato com a Polícia Federal para perguntar as afrontas ao código de ética que o delegado pode ter cometido. A instituição respondeu que não irá se manifestar e que a corregedoria “tomou ciência do caso”.

A chefe da corregedoria Regional da Polícia Federal no Paraná é a doutora Rosicleya Baron de Albuquerque Barradas. Este é o telefone dela: (41) 3251-7671 e esse é seu e-mail cor.srpr@dpf.gov.br. São informações públicas.

Talvez ela não esteja sabendo que o cunhado do delegado Pecoraro era parte interessada na investigação dele.

Ou possa só apreciar nosso poeminha. 

Bom sábado.


Amanda Audi
Repórter
 
Leandro Demori
Editor Executivo
 

Rafael Moro Martins
Editor Contribuinte Sênior
 

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