
FCO.LAMBERTO FONTES
Trabalha em JORNALISMO INTERATIVO
Mora em ARAXÁ/MG
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16 / 09 / 2021, DO SÉCULO 21
Quinta-feira, 16 de setembro de 2021
Não me convidaram pra essa festa rica
Olá,Você deve ter visto um vídeo esta semana que ajuda a resumir o que rege o Brasil há 500 anos: em uma mesa de jantar luxuosa, cercada de empregados de uniforme, quase 20 homens brancos, de meia idade (ou mais), ricos e poderosos, se divertem ao ouvir o imitador André Marinho ironizando o pedido de ajuda de Bolsonaro a Michel Temer no pós-7 de setembro. À mesa, nenhuma mulher, muito menos um negro: só homens brancos ricos. Essa cena resume não só o poder no Brasil, mas o tipo de poder que o Intercept investiga.O banquete árabe foi servido na mansão do megaespeculador Naji Nahas (conhecido pela quebra da Bolsa do Rio de Janeiro e acusado de corrupção e lavagem de dinheiro) e reuniu políticos, como Michel Temer e Gilberto Kassab; barões do jornalismo(!), como João Carlos Saad, da Band e Roberto D'Ávila, da Globo; advogados, médicos e empresários renomados. Todos eles riram do deboche com o atual presidente, mas é importante lembrar: vários apoiaram o ex-capitão e agora, com a queda vertiginosa de popularidade de Bolsonaro, correm para se distanciar dele.Quando o vídeo chegou ao grupo da redação, que desde o início da pandemia trabalha de casa, os comentários floodaram a tela: quando vi o aplicativo, já eram mais de 100 mensagens. Tivemos que reconhecer que o imitador era bom, comentamos a onipresença de homens brancos da terceira idade — várias de nós lembramos de jornais e agências em que trabalhamos e tinha exatamente o mesmo tipo "aquário", a cúpula da redação: só homens brancos, mais velhos, com dinheiro. E, aos poucos, os comentários foram chegando a um consenso político: aqueles convidados podem até estar cansados (e fazendo pouco) de Bolsonaro, mas eles não desejam nada muito diferente para o Brasil.Faz tempo que um meme sobre quem controla o país não envolve o clã presidencial, mas talvez por isso mesmo retrate tão bem a realidade. Bolsonaro e seus filhos sempre venderam uma falsa narrativa de simplicidade: fala direta e cheia de palavrões, mesa sem toalha, pão com leite condensado e varal ao fundo. Mas nada disso condiz com a realidade da recente compra da mansão de Flávio em Brasília a quase R$ 6 milhões, que se soma ao imóveis milionários da família em bairros ricos do Rio, nem com as seguidas denúncias de rachadinhas no clã — crime que o TSE acaba de definir como enriquecimento ilícito. O vídeo do jantar nem tenta disfarçar, mostra o poder em todo o seu luxo, exclusão e descaso: eles bebem e riem da política enquanto o país afunda.Esta mensagem é pra te dizer que, em meio à revolta gerada pela cena de opulência na reunião de poderosos que há tantas décadas comandam, cada qual em seu metiê, boa parte da política e da economia brasileira, eu vi algo de útil nesse vídeo. Ele nos lembra que a família e o governo Bolsonaro estão longe de ser o único poder com que devemos nos preocupar.Temer estava fora dos holofotes há um bom tempo, mas faz apenas cinco anos que protagonizou um golpe, com apoio do empresariado e da mídia corporativa, que foi a antessala do caos onde estamos. Se planeja ser "terceira via" ou vai apoiar Bolsonaro em 2022, ainda é cedo para saber. Mas de uma coisa sabemos: com ou sem Bolsonaro em 2023, os jantares luxuosos e as transações e os acordos entre risadas, abotoaduras e taças de vinho continuarão decidindo a política nas mansões Brasil afora.Ao contrário dos figurões da mídia brasileira, nós não nos sentamos para jantar e rir com megaempresários, presidentes, juízes e poderosos que definem a política e a economia. Você sabe: nós não aceitamos nem queremos o dinheiro de quem queremos investigar. Precisamos do seu apoio para seguir denunciando os crimes, abusos e desmandos das pessoas na sala de jantar.
Abraço,
Tatiana DiasEditora Sênior
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