
FCO.LAMBERTO FONTESTrabalha em JORNALISMO INTERATIVOMora em ARAXÁ/MG
16 / 11 / 2021, DO SÉCULO 21
O retorno à ribalta
de Moro e Dallagnol
é o momento mais
trágico
do meu pesadelo
A irrupção de ambos
na cena política ensombrece tragicamente o espantoso momento vivido pelo Brasil
de Bolsonaro
Por MINO CARTA em 13 de novembro de 2021
O retorno à
ribalta de Sergio Moro e Deltan Dallagnol é o momento mais trágico do meu
pesadelo. No país mais desigual do mundo, nunca bafejado por uma autêntica
democracia, onde a casa-grande e a senzala continuam de pé para nos atar à
Idade Média, o sonho maligno torna-se realidade. Difícil
é localizar o exato princípio deste enredo. O
impeachment de Dilma Rousseff? Ou
o início da Lava Jato entregue à chamada República de Curitiba?
Naqueles
momentos, o STF tinha a chance e, mais ainda, o dever de intervir, mas em ambos
os casos cruzou os braços qual fosse mero espectador. O nosso Supremo é uma
casa muito especial, com papel assegurado no pesadelo. É o único tribunal do
mundo a oferecer aos olhos e ouvidos do público as suas sessões pela televisão.
Ali tonitruam, com raríssimas exceções, a parvoíce e o escasso saber dos
integrantes dispostos a exibir talentos de asnos pomposos.
Moro não
deve ter lido um livro exemplar intitulado Dos Delitos e das Penas, de autoria
de Cesare Beccaria, ainda no século XVIII. Ali se lê da diferença entre “o
processo ofensivo”, quando o magistrado, em lugar de ser “indiferente
investigador da verdade” torna-se inimigo do réu, ao buscar no prisioneiro “o
delito, a insídia” ao sabor, acrescenta Beccaria, do interesse “não de buscar a
verdade, e sim de provar o delito”. De fato, Moro e Dallagnol agiram sempre
politicamente a serviço de motivações convenientes à casa-grande e ao próprio
Tio Sam e seu imperialismo. Esta ligação de Moro e Dallagnol com a diplomacia
de Washington é corroborada, de resto, por frequentes visitas de ambos aos
Estados Unidos.
O pesadelo
não arrefece, longe de se aplacar. Vejo florestas ensanguentadas no confronto
entre arcabuzes e arcos e flechas. Quatro milhões de africanos abduzidos à
força nos seus pagos e trazidos para cá por navios ditos negreiros, para serem
escravizados pelos colonos de um Brasil habitado por degredados, prostitutas e
cristãos-novos. O território da colônia é dividido entre senhores feudais e
aqui se implanta a ideia nefasta da monocultura.
OS DESPOJOS DE GETÚLIO VARGAS SÃO EMBARCADOS PARA SÃO BORJA DIANTE DE UMA MULTIDÃO EM PRANTOS. ACIMA, O DOUTOR ULYSSES, HERÓI DE UMA CONSTITUIÇÃO AVANÇADA.
(FOTO: AILTON DE FREITAS/FOLHAPRESS E ARQUIVO NACIONAL)
Não falta ao
pesadelo a corte lisboeta, encabeçada por D. João VI, que abandona seu país ao
se aproximar da capital o general napoleônico Junot, e aqui transfere o seu
império. O sonho maligno se enriquece com a ficção de uma independência despercebida
pela população e não há quem ouça o chamado Grito do Ipiranga. A monarquia, enfim representada por D. Pedro
II, é derrubada pelo primeiro golpe fardado e o poder acaba nas mãos dos
militares.
Circulam
pelo pesadelo generais de quepes abnormes, que lhes pressionam perigosamente as
têmporas, de sorte a provocar a cólera do dobermann ou do pit bull. Segue-se um
festival de refregas destinadas a confundir os ânimos e as mentes. Triunfam o discurso
retórico e a maquiagem da história, até o advento de um ditador estranhamente
dotado da vocação de estadista, enfim revelada quando, eleito
constitucionalmente, abre o caminho da industrialização com o ponto exclamativo
da criação da Petrobras, em outubro de 1953.
Getúlio
confere ao trabalhador um status ainda não alcançado, e assim ganha inimigos
entre os herdeiros da casa-grande. Contam eles com um veemente advogado, Carlos
Lacerda, também conhecido como O Corvo, pássaro talhado para este enredo. Dado
a melancolias, o ex-ditador, cercado pela revolta dos senhores, apanha a
pistola que repousa sobre o seu criado-mudo e mata-se com um gesto a mediar
entre desprezo, desespero, impotência e ironia.
Enxergo um
estranho indivíduo munido de uma vassoura que não sabe usar, dominado pela
obsessão do poder, mas desastrado em seus movimentos, e desta situação
evoluímos para um novo golpe em 1964. Surge uma ditadura de 21 anos secundada
por um exército de torturadores exímios, a ponto de transmitirem a sua mestria
além-fronteiras, a prestigiar golpes desferidos em outros pontos do mapa
latino-americano. Ao cabo, os militares convocados pelos herdeiros da
casa-grande renunciam ao poder e no tempo abrem uma fresta para um período
esperançoso, sobretudo quando aparece na ribalta um ex-metalúrgico cheio de boa
vontade e grande amor pelo povo.
O golpe moderniza-se: antes aplicado pelos
militares convocados pela casa-grande, hoje executado pelos próprios poderes da
república


