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02/09/2015
Buraco negro sistêmico:
o epicentro da tempestade
ainda está no Ocidente
Similar em intensidade ao terremoto financeiro de 2008,
o novo abalo teve início na China, mas é o coração
do Ocidente que está no centro da tormenta.
O
novo tremor atingiu os mercados de ações globais em agosto: primeiro os
asiáticos, depois os ocidentais. Uma queda vertiginosa que logo levou ao ioiô
característico dos tsunamis financeiros, como nas vésperas da crise de 2008,
quando computadores de alta performance trabalhavam no limite, tentando salvar
as aparências, em vão.
Os
pilares da economia continuam tão capengas quanto a estrutura financeira, com
um crescimento global ainda lento, tanto nos Estados Unidos e na Europa (França
com 0% no segundo trimestre), quanto no Japão, Canadá e Austrália. E isto
apesar das injeções de enormes somas pelos bancos centrais, particularmente o
Banco Central Europeu.
O
que marca este novo episódio de um colapso sistêmico é, justamente, a perda de
controle pelos bancos centrais, últimos bastiões do sistema contra o buraco
negro financeiro de uma dívida que não para de crescer.
"O
buraco negro" é como o engenheiro russo-americano Dmitry Orlov chama o
ciclone financeiro que está sugando o velho mundo dominante em seu turbilhão
autodestruidor.
"O
buraco negro suga a medula de famílias (embora às vezes também sugue cidades
inteiras como Detroit, Michigan ou Bakersfield, na Califórnia, e Camden, em New
Jersey).
Ele
suga casas, e as regurgita cheias de dívidas podres.
Com
a ajuda da indústria médica, suga os doentes e os cospe de volta arruinados.
Com
a ajuda do extorsivo ensino superior, suga a esperança dos jovens, e os cospe
de volta com diplomas e presos a uma dívida estudantil vertiginosa.
Com
a ajuda do complexo industrial-militar, o buraco negro suga praticamente tudo o
que há pela frente, e regurgita cadáveres, inválidos, desastres ambientais,
terroristas e a instabilidade mundial".
Eis
que, explica Dmitry Orlov, agora o buraco negro começa a engolir países
inteiros: a Grécia, por exemplo, e os países que a cercam...
Há
um piloto no avião para nos tirar desse vespeiro? – você se pergunta.
Infelizmente
não, responde Dmity Orlov, no comando há apenas marionetes, que o buraco negro
tornou estúpidas e completamente incapazes de deter a queda aos infernos.
Mas
o buraco negro ainda encontra alguns obstáculos: a Rússia de Putin,
recentemente, com o atoleiro ucraniano. Também não está certo que tudo esteja
mesmo acabado na Grécia, o berço da democracia, que conseguiu dar duas bananas
ao buraco negro: primeiro ao eleger um poder não institucional (Syriza), depois
com o memorável referendo de 5 de julho.
A
Grécia talvez não tenha ainda dado sua última palavra – mesmo com o naufrágio
político pessoal do seu líder Alexis Tsipras – e poderia dar algumas idéias
para seus vizinhos do sul, também vítimas do infernal buraco negro.
E
há, também, a China.
É
de lá que vem o atual terremoto.
Mas
há uma diferença entre as marionetes viciadas em buracos negros dos mercados
mundiais e a China. Como observou Michael J. Panzner, a China só se serve dos
mercados quando eles servem a ela. Quando jogam contra, ela os fecha e os
isola. E os manipula à vontade.
Pergunte-se,
por exemplo, por que a desvalorização do Yuan chinês levou imediatamente à
queda do dólar-padrão dos EUA, quando deveria ter sido o oposto, como diz Lucie
Roofer no Mediapart.
A
resposta é: porque os chineses não desvalorizaram realmente sua moeda, mas
criaram novos sistemas de regulação, sob seu próprio controle, especialmente na
fixação de preços e de paridades, que permitem limitar as manipulações
monetárias no mercado cambial. A guerra cambial em seu auge.
Por
isso é que, hoje, não são as ultrapassadas marionetes do Império Ocidental que
possuem as chaves para sair do buraco negro financeiro, mas, provavelmente,
países como a China.
E,
talvez, até mesmo, oh que horror!, a Federação Russa do infame Vladimir Putin.
Ah,
claro que diante de tal constatação os adeptos da negação irão perder a cabeça,
nos chamar de catastrofistas, de adeptos da teoria da conspiração, acusar-nos
de semear o caos, vão soltar gritos desesperados e repetir ad nauseam os
jargões totalmente ocos soprados pelas marionetes que os dirigem: “Putinista!
Esquerdista radical!”. Deixemos Dmitry Orlov dar uma resposta condizente:
"Você
ama seu buraco negro? Se não tem certeza, deixe-me fazer mais algumas
perguntas.
Você
gosta do fato de que seus cartões de crédito ainda funcionam, ou que você ainda
pode deixar seu dinheiro no banco, e até mesmo sacar dinheiro em um caixa
eletrônico ou receber – ou esperar receber – sua aposentadoria, mais cedo ou
mais tarde?
Você
gosta de poder obter coisas úteis como alimentos, gás, passagens aéreas, com
notas comuns de papel impressas com imagens de homens brancos mortos,
monumentos ou animais?
Você
gosta de ter acesso à Internet, poder acender as luzes e ter água na torneira?
Bom,
se você gosta dessas coisas, você também deve gostar do buraco negro
financeiro, porque é ele que torna todas essas coisas possíveis, apesar da
falência do seu país.
Talvez
seja uma relação de amor e ódio: você gosta de fingir que está tudo bem, mesmo
sabendo que não está, e você quer aproveitar um pouco mais do atual estado da
economia, antes que o inferno caia sobre nós, seja por alguns dias ou por um
ano ou dois; mas você detesta o fato de que, mais cedo ou mais tarde, o buraco
negro vai sugá-lo, até que tudo aquilo que damos como certo seja também
sugado".
Tradução de Clarisse Meireles

